Nagôgrafia - Museu dos Caminhos Negros

NAGÔ do Iorubá Termo cunhado, para referir-se aos processos culturais transitórios de muitos povos oriundo da Costa Ocidental da África e residentes no Brasil, nas zonas próximas aos portos, em específico no nordeste e em maior concentração no atual estado da Bahia. A nação nagô, ou a etnia iorubá, seria do âmbito das formações imaginárias – identidades ou tradições inventadas para dar conta de eventos culturais, políticos e econômicos – que neste caso, começou a tomar a configuração atual, entre os anos de 1890 e 1940 – uma identidade 'criada em uma sociedade crioula da Costa, que estava em constante diálogo com as nações religiosas emergentes da diáspora afro-latina'. - J. Lorand Matory NJILA do Quimbundo Uma definição possível para palavra Njila foi grafada pelo pesquisador e poeta angolano Joaquim Dias Cordeiro da Matta: Pâmbu, s. Atalho, encruzilhada, fronteira. // kusómbôka pambu, transpor uma encruzilhada. Pl. Jipâmbu. Pambuanjila, (pambu ia-njila), s. Encruzilhada. É o nome de uma das deidades ‘Nkisis’ do Panteão religioso do Candomblé de Angola e Congo, estabelecido no Brasil como Nação Angola, é a representação espiritual-física dos Movimentos e dos Caminhos e toda comunicação associada a esses processos. NAGÔGRAFIA O projeto Nagôgrafia - Museu dos Caminhos Negros, nasce em principio dos movimentos de registro filmico-fotógrafico do pesquisador visual, Vitú de Souza na passagem de ano de 2020 para 2021, com a intensificação da crise sanitária dos vírus da Covid-19 e seus desdobramentos nos campos sociais. Partindo da ideia de “fotografar todos os negros, com quem eu cruzo em meu caminho”, o projeto incorpora a palavra do Idioma Yorubá (falado na Nigéria e Benin) - ‘Nagô’ - que em sua tradução livre, é o termo utilizado para sinalizar os Caminhos Percorridos, Estradas ou Rotas, travessias estabelecidas, comumente conhecidas, sendo referidas como pontos de localização, Nagôs, sendo os caminhos, suas possíveis aberturas e encruzilhadas. Contudo, em consequência ao tráfico humano de africanos pelo atlântico e seu intenso e cruel processo de exploração comercial, povos da costa da Ocidental, falantes dos idiomas Fon e Yourubá, materializam suas culturas, diante do processo de diálogo em que estabeleceram e por possuírem dialetos semelhantes, se organizaram enquanto contracultura, ‘O Povo Nagô’ ou ‘Nação Nagô’, na costa Bahia em 1800 se estabelecendo por todo o território Brasileiro, através dos terreiros e outras organizações culturais. Há também diversos processos similares ou com graus de similaridade em toda a América do Sul e Central, como os casos específicos do Maranhão, Recife e Cuba, onde também há Povos Nagô, em diálogos com Tradições de povos Bantus (da África Central), resultando em arcabouços estéticos, chamados Nagôs, que se estendem desde os penteados de cabelo (Nagô Braids - Trança Nagô) e vão até a nomenclatura comum de panos africanos e objetos da áfrica Central e Ocidental, que por falta de conhecimento aplicado, são reunidos sob esse nome. Em Belo Horizonte, Nagô, está inserido no contexto religioso do Candomblé da Nação Ketu(nagô) e das várias tradições de Umbanda que tocam e praticam rituais desta nação e também no culto dos Pretos Velhos. Ciente desses processos simultâneos, o projeto Nagôgrafia, é um dossiê de musealização e preservação, dessas diversas Idiossincrasias Negras Africanas, em diáspora ou não, sendo, ‘A Grafia dos Caminhos’ percorridos e não-abertos por passos negros, agindo em paralelo a contra cultura, em todas as relações e diálogos estabelecidos por africanos, no processo de reconstrução e materialização de suas raízes culturais e patrimônios, aqui no Brasil, a Nagôgrafia é a escrita de todos os lugares onde negros africanos estiveram, fisico-espiritualmente, acentuando o que há de mais belo e único em todas os fenótipos dos mais diversos corpos e expressões, presentes em todo o território diaspórico, por onde o projeto pretender caminhar. RECORTES POSSÍVEIS Dentro da proposta do Nagôgrafia, foram realizados diversos percursos expositivos, dado o vasto acervo fotografado ao longo dos 4 anos de projeto, disposto tanto em formato digital quanto em formato físico. Nagôs - Percurso Digital - 2021 a 2022 O percurso expográfico do projeto Nagôgrafia que surge durante a pandemia, no processo registro das afetividades negras, impelidas pelo distanciamento social e as reinvenções que muitas culturas tiveram que se adaptar para continuar existindo. Dentro disso se destaca a série ‘Axé em Tempo de Pandemia’, o registro que foi realizado durante as festividades do Terreiro Ilê Axé Afonjá Oxeguiri, no bairro Concórdia. Bantugrafias - Museu Virtual - 2022 No ano de 2021, em cumprimento a um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) a prefeitura de Belo Horizonte, por meio do Departamento de Patrimônio Cultural e Arquivo Público de Belo Horizonte, organizou rodas de conversa e diálogos sobre memória tradicional, para desencadear em um documento unificado, sobre cada uma das expressões afro religiosas, presentes no bairro Concórdia, um expoente centralizador do contribruto cultural negro em Belo Horizonte e em Minas Gerais. Nesse sentido, com a ausência de orçamento previsto para a pesquisa e registros das tradições, o projeto Nagôgrafia agiu de forma voluntária, no registro fílmico e fotográfico de cada Terreiro-comunidade, no primeiro ano, foram seis comunidades fotografadas pelo projeto, as quais foram catalogadas e inventariadas, seguindo as diretrizes museológicas vigentes, estabelecidas pelo Instituto Brasileiro de Museus e foi desenvolvido um modelo ‘Beta’ de uma exposição online do acervo e sua comunicação para as comunidades e em dialogo com os outros arquivos fotograficos negros, estabelecendo assim, um ‘Museu Virtual’ de acervo participativo, das religiosidades negras, com curadoria participativa. Eu sou de lá, do lado de lá da maré - Selecionada para o Espaço Arte Educação FAE UFMG - em 2023 (ainda sem data de montagem) A Exposição ‘Eu sou de lá, do lado de lá, da Maré’ é a reunião parcial do acervo de 5 anos do projeto Nagôgrafia, dos registros líquidos, fotos de mar e rio, que foram coletadas em momentos desinibidos de purificação. A Água é o tema central do projeto e dentro disso, dois marcos são destacáveis, o Oceano Atlântico, este grande Museu e memorial, de grande parte das nossas culturas, é a Kalunga, tanto Ritual quanto Cemitério, para diversas expressões que não resistiram a travessia, é a grande divisão, entre os nossos continentes-residências, sendo assim, sempre reverenciado, enaltecido e fotografado. No recorte específico, foram selecionados 3 (três) pontos do Atlântico: O encontro dele com o Aterro do Flamengo em São Sebastião do Rio de Janeiro, onde a artista Massuelen Cristina realizava sua performance ‘Corpocontinente’; Na ‘Praia Areia Preta’ no Balneário de Guarapari, onde fotografei, Hugo, Felipe e João, filhos de Jorge, que se divertiam soltando pipas e por fim na Praia da Gamboa no Solar do Unhão, em Salvador, uma vila de pescadores, onde as artistas Andressa Batista e Inah Irenam, estavam se conectando com sua ‘mar-mãe’ em comum, ambas filhas de Iemanjá, após o 2 de Fevereiro, estavam aproveitando o descanso, posterior as funções espirituais desenvolvidas por elas durante a procissão. Para além-mar, o Rio das Velhas é o outro foco desta exposição, esse importante afluente do Rio São Francisco, foi o lugar escolhido para o ‘Ebó de cura’ feito pelos membros do Quilombo Xavier, por ação de sua descendente mais jovem Massuelen, que perpetua os cuidados e ensinamentos, realizados por suas mais velhas, alimentando e ofertando ao Rio para que ele voltasse a seu leito normal. Este ritual ocorreu, após as cheias de 2020 e 2021 na região de Sabará, que prejudicou diversas famílias e inclusive a da artista, levando-a realizar o ritual, para consagração e alimento da Nascente do Rio em um córrego, entre Sabará e Nova Lima. MEMORIAL NAGÔS & NJILAS Njila, percorreu tudo nessa terra, caminhante caminho é a o veio aberto em tudo o que existe e tudo o que há, sem Njila não há chão, não há pé, não há vontade, Njila, percorreu tudo nessa terra, caminhante-caminho é o veio aberto em tudo o que existe e em tudo o que há, sem Njila não há chão, não há pé, não há vontade, Njila é o objeto, a memória e a arqueologia, a materialidade de tudo e em todo lugar. Embaixo das ruas que constroem nossos bairros, casas, edifícios, moram abertos os caminhos-fundamentos, traçados pelos pretos que vieram antes de nós. As Njilas feitas como gravuras permanentes, cicatrizes abertas, que mesmo com a resistência do apagamento, não perdem textura ou silhueta, desenhos no chão, pontos riscados, feitos de próprio-punhos usando sangue como tinta, contornando e mapeando, as vias e veias possíveis para se atravessar e encontrar lugar seguro. Há uma Sankofa em cada portão dessa cidade, há negro em todos os bairros e lugares, sinalizando a latitude e coordenada para quando estamos perdidos, em cada encruzilhada, novos caminhos, que mesmo longínquos, sempre dão a oportunidade de voltar. Nagô nunca faltou, traçou o primeiro, caminho que ficou, mostrando a todo preto como ser caminhante, Nagô se transformou, abriu a mata com o facão de amolador, limpando o capim-virgem, ficando em tudo que existe, a memória dos passos de quem por aqui passou, deixando nos testemunhos e vestígios, os ensinamentos para construirmos, os assentamentos em homenagem aos nossos avôs.

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